terça-feira, 17 de julho de 2018

FLIQ 2018 - Qurença - Loulé

FliQ - Festival Literário Internacional de Querença - que decorreu em 3, 4 e 5 de Agosto, homenageou o trabalho oficinal de e sobre a poesia de Gastão Cruz, dando lugar e enquadrando a entrega da medalha de mérito cultural com que foi galardoado pelo Ministro da Cultura em 4 de Agosto de 2018.


O FliQ homenageou ainda o Tóssan, desenhador humorista, repórter do quotidiano sócio-político, no decorrer dos três dias do evento.

Estas duas homenagens foram o pretexto para a realização do Festival de 2018 (o terceiro) organizado pela Fundação Manuel Viegas Guerreiro, com sede em Querença, que este ano se desenvolveu sob o tema Literatura e Ilustração.

Como em geral sucede neste tipo de encontros literários, sejam festivais, congressos, ou outros, trata-se sempre de promoção e produção de currículo, a par da socialização entre os elementos das elites - (em plano de fundo grupos - partidos - políticos) - sócio-culturais estabelecidas e os novos pretendentes ou candidatos a um estatuto ou lugar entre os mais considerados. Neste contexto são selecionados e convidados os intervenientes, mediante propostas e conselhos dos elementos (socialmente) mais próximos da Organização. Nada demais se vê nisto senão o processo mais comum em Portugal de organização deste tipo de encontros. 


A organização do Festival merece contudo a nossa aprovação pelo carácter manifesto do programa e do seu decorrer, excepto pelos enormes atrasos (incumprimento de horários) das sessões.

Das intervenções merecem destaque além de Gastão Cruz, pela sua intervenção, clarificando que a poesia é um ofício que implica o fazer, o saber fazer adquirido com os mestres da mesma arte; o Ministro da Cultura (Luís Castro Mendes) pelo seu saber ler, pela sua leitura de poemas, quem melhor soube realizar a leitura de poemas de um outro poeta.

Duas outras intervenções atingiram um nível cultural que as distinguiram, sobressaindo do lugar comum português de reprodução, bajulação: a de Fernando Cabral Martins sobre a poesia e o ofício de Gastão Cruz no seu edifício no contexto histórico português; e a de Carlos Martins de Jesus sobre a Literatura (poesia) e Artes plásticas (Cerâmica grega) na antiguidade clássica.

Fernando Cabral Martins destacou na sua Conferência o facto da poesia moderna a partir do romantismo se ter debruçado sobre a sua própria episteme, - aliás tal como nós temos afirmado em relação à pintura, e com certeza como as restantes Artes - pesquisando o poeta sobre o ofício da poesia, desde a organização das palavras e ao ritmo fonético às profundezas do emocional e à forma, do visual ao inconsciente e subconsciente, ao surreal, sugerindo-nos ainda o domínio da representação da representação da representação... De algum modo colocando Gastão Cruz nessa corrente de desenvolvimento, que, sendo questionável, decorre da posição do orador no contexto do evento.

Carlos Martins de Jesus teve o mérito de falar de Literatura e Artes Plásticas, apresentando a fotografia de um vaso grego com uma pintura figurando um dos mitos de Medeia, muito embora a questão esteja já tratada na Wikipédia, a sua exposição foi a única que tratou a questão relativa entre a Literatura e Artes plásticas, porque as restantes intervenções relativas ao tema trataram da relação entre a poesia e a imagem - considerando imagem apenas como uma visão contendo objectos num determinado espaço, seja ele dado por uma fotografia, uma pintura ou a pela percepção da realidade visual - portanto, não atingindo o nível do tema proposto. Porque em Arte o que distingue a obra é a sua forma, não a imagem representada, tanto na poesia como na pintura ou na música. É a forma que determina a Obra de Arte e, portanto, o Tempo (época) a que a obra de Arte pertence.
Contudo a conclusão de Martins de Jesus é que a informação é o elemento comum à Literatura (Medeia de Euripedes) e aquela pintura no vaso grego, cabendo ao artista pintor ceramista também alguma inovação na construção gráfica e cultural no mito de Medeia, adicionando novas opções ao mito. Concordando em grande parte nesta interpretação, nós diríamos que não se trata de informação, porque informação é um conceito moderno e actual que não se aplica ao pensamento conceptual grego clássico da mesma forma que hoje o entendemos. Trata-se sim da representação e participação do desenvolvimento do universo cultural do mito de Medeia, tanto da parte dos poetas, dramaturgos, como dos pintores ceramistas. Tanto uns como outros participam da representação (criação) do universo cultural do seu tempo, no caso, participam do desenvolvimento do mito de Medeia nas suas mais diversas produções.

Ao fechar o FLiQ 2018, Guilherme de Oliveira Martins teve o mérito de repor o tema, referindo-se sempre a Literatura e imagem, - para dizer Literatura e Ilustração - no sentido de imagem como ilustração, banindo o tema Literatura e Artes plásticas, questão que, a não ser pelos clássicos gregos foi apenas apontada por Martins de Jesus, nunca foi abordada, menos analisada.

Nada mais há que mereça alguma referência nas intervenções da nossa parte, a não ser a presença constante de Narciso e a crítica ao facto de alguém, em pleno século xxi, ainda considerar que da ilustração, da imagem (no sentido comum), e mais ainda de uma pintura (obra de Arte) se pode fazer um poema que a substitui num grau superior, passando assim ao nível da palavra, isto é, considerando-o um salto para um patamar superior.
Isto afirmado por representantes da elite académica!

Faro, 6 de Agosto de 2018.
Noémio Ramos



1 comentário:

  1. Óptimo texto (isto, para ser bajulador, porque, aqui ou ali, eu alteraria ligeiramente a pontuação - picuinhices minhas…). Quanto ao conteúdo, arrebatadamente crítico, como sempre, e conhecimento de causa. Nem me atrevo a pôr em dúvida o questionamento da "informação" e a pretensa superioridade da poesia, relativamente às artes visuais.

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