sábado, 1 de dezembro de 2018

Conservar a palavra: Patrimónios literários e Literatura patrimonial


Fundação Manuel Viegas Guerreiro, Querença, 24 de Novembro de 2018



Oradores: Pedro Ferré, Ana Mourão, João Minhoto Marques
Moderadora: Sandra Boto
 
Conceito da acção (na prática actual):
Em geral as “mesas redondas” actuais constituem uma espécie de espectáculo de projecção – que se pretende erudito – em que o público se deve pasmar tanto pelo saber quanto pela performance dos oradores seleccionados para o palco, e, como vai sendo prática corrente, em conformidade com a comunicação de massas, ao moderador pertence intervir dirigindo e impondo-se como maestro, ou expressando sentenças, ou ocupando-se com loas ou outras alocuções triviais.
Ao público, na plateia ou no balcão, como em qualquer espectáculo, cabe-lhe apenas aplaudir sem causar inconveniências ou interrupções no programa e, em contrapartida, ao maestro cabe impor a sua batuta se da plateia se levantam quaisquer divergências ou obstáculos.

Podemos afirmar que a sessão na Biblioteca da FMVG obedeceu correctamente ao paradigma da acção exposto. Todavia, uma prática muito longe do nosso ideal de Mesa Redonda perante uma plateia.



Contexto da acção:
Assistiu-se à exposição individualizada dos oradores enquadrada no tema programado da “Mesa redonda”, Conservar a palavra: Patrimónios literários e Literatura patrimonial, dirigida pelas intervenções da moderadora, ora adicionando perspectivas além do contexto, como a candidatura a “projectos da EU sobre o património”, ou a “digitalização” do património “da palavra e do literário”, ora recorrendo a manipanso para leitura de alguma afirmação relacionada com o contexto, lendo floreadas opiniões triviais, ora cortando com diplomacia a interrupção por parte da plateia.

Assim se distribuindo o resumo das intervenções dos oradores:
Ana Mourão perorou sobre “Conservar a palavra”, pondo em evidência a tradição oral, popular, ou a memória de um povo, e a necessidade da sua conservação.
Pedro Ferré perorou sobre “Patrimónios literários”, tornando evidente que o património se deve definir pelos nossos Valores históricos. Património é História, e constitui-se pelo nosso passado: havendo objectos e documentos dos Valores do passado, como também nos ficaram do passado objectos (materiais e imateriais), na forma de tradições, que hoje documentamos em registos sonoros, escritos e ou fotográficos. Porém, sem História não há património.
João Minhoto Marques perorou sobre “Literatura patrimonial”, evocando a necessidade dos Cânones (Valores) para determinar ou seleccionar o que é ou não Literatura patrimonial.


Uma confusão generalizada estabeleceu-se com a questão da “digitalização” do património, no caso literário, oral ou escrito, em todo o caso documental… Esta questão conduziu a algumas incongruências da parte dos que sobre isso se pronunciaram.


 Análise da acção
O formato paradigmático da “Mesa redonda” não corresponde aos nossos ideais – certamente uma apreciação subjectiva – porém, verificámos haver uma organização compartida e linear das intervenções: (1) Conservar a palavra; (2) Patrimónios literários; e (3) Literatura patrimonial; não havendo lugar a debate sobre um mesmo tema. Pelo que o debate não sucedeu.
Cada orador pronunciou-se apenas sobre a particularidade do tema que lhe foi consignado (1,2,3), com a excepção de Pedro Ferré que, numa segunda intervenção, com as referências ao romanceiro velho (sec. xiv e xv, anónimos, populares), ao romanceiro de autor (novo, Gil Vicente), e aos romanceiros tradicionais (populares) que se conservam (ex. na FMVG), bem como à valorização da História e das premissas nacionais (ex. EEUU, sem História, sem bitolas de qualidade), para a definição dos Cânones, soube colocar a interacção temática em causa na “Mesa redonda”.
E sobre a temática nada mais há a dizer.
Sobre outras questões fora do contexto temático, introduzidas pela moderadora, como a questão dos projectos a financiar pela EU nos próximos anos, no que diz respeito ao património cultural e sua digitalização, lembramos que o primeiro objectivo da EU está dirigido aos “valores patrimoniais de carácter europeu”, ao que incide sobre o património histórico comum dos europeus, aos valores interactivos da história europeia (nestes os valores nacionais respeitantes), só depois aos patrimónios exclusivamente nacionais e, só por último, aos objectos e documentos materiais ou imateriais de carácter local, ou de lugar. Simplesmente porque há sempre prioridades.
Sobre a questão da digitalização, também introduzida na “Mesa redonda”, queremos contribuir para esclarecer algumas confusões detectadas nas intervenções:

Arquivo digital de obras literárias (qualquer texto impresso ou manuscrito):
Tal como o registo escrito, o registo digital das artes que utilizam a palavra ou somente as letras, sinais ou outros símbolos afins de uma linguagem, é possível, conveniente e importante que se faça, conscientes de que o que se deve digitalizar é a escrita. Digitaliza-se cada palavra, letra a letra e outros símbolos ou sinais da escrita, de qualquer língua viva ou morta, onde cada letra, símbolo ou sinal corresponde a um código numérico na sua forma binária, constantes de uma ou mais tabelas de codificação, registando-se em metadados a descrição e identificação, da digitalização efectuada das respectivas tabelas de codificação (algo que é feito de modo oculto pelo programa informático utilizado) e de tudo o mais que seja importante para a sua tradução simbólica legível ao Homem (portanto o formato de dados utilizado pelo programa de computador usado para o efeito), portanto reconvertendo o código em letras, e assim em texto escrito. Há hoje uma standardização aceitável dos meios informáticos e um manancial de conversores para diferentes sistemas de tabelas e organização de dados. E fora disto não há digitalização de texto.
A digitalização de texto pode realizar-se de forma manual ou automática.
A forma de registo digital por entrada manual de dados (texto, escrito), é ainda a única que de longe garante, após revisões efectuadas por terceiros, a correcção dos dados digitalizados.
A digitalização automática de texto pode hoje fazer-se de dois modos, a partir de duas formas diferentes de entrada: (1) ou entrada de voz; (2) ou entrada de documento escrito (impresso ou manuscrito) fotografado. Tanto uma forma como a outra estão, ainda hoje, bastante sujeitas a erros de leitura, de identificação e de programação.
Nas entradas de voz os programas informáticos que identificam as palavras, os ditongos ou os sons, não estão suficientemente aperfeiçoados senão para frases simples e muito limitadas, ainda que “o (auto) arquivo de dados e a (auto e re)programação informática dedicada” – a dita “inteligência artificial” – apropriada ao sistema procure avançar, porém, sem fim à vista, sem que se adivinhe uma meta ou garantia de não cometer erros.
Nas entradas por fotografia documental, os programas informáticos que identificam letras, sílabas, palavras e frases, os denominados OCR (reconhecimento óptico de caracteres), sofrem de problemas semelhantes: fraca identificação dos caracteres tipográficos, agravando-se exponencialmente com a antiguidade e ou o estado de conservação dos documentos fotografados; e a impossibilidade de reconhecimento correcto das caligrafias, etc.. Todavia, neste caso, quanto mais recentes forem os documentos impressos fotografados (sobretudo se os caracteres tipográficos pertencerem às fontes dos processadores de texto por computador), melhores os resultados de um programa OCR, que também os há bons e maus.
Podemos afirmar que há bons programas de leitura de texto fotografado (OCRs), pois os melhores permitem recuperar texto que, embora com uma enormidade de erros, possibilitam a construção de ficheiros de texto que podem (e servem) de base à indexação das palavras que se encontram no documento fotografado, o qual depois se pode apresentar ao leitor (na consulta) apontando as palavras procuradas.
Por exemplo: o Projecto Gutenberg , o mais avançado projecto de digitalização de texto, apresenta como resultado da pesquisa os ficheiros em vários formatos de arquivo de dados, incluindo o ficheiro com a digitalização manual, ou a digitalização automática do texto (saída do OCR) a partir dos documentos fotografados (com DSLR ou através do scanner), enquanto a Google (books) apresenta o documento fotografado apontando as palavras constantes da página, e nela identificadas pelo OCR, mas cada página sob a forma de imagem fotográfica.
Assim, cada arquivador de dados digitais apresenta diferentes formas de arquivo a que chama digitalização.
A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) assim como a de Espanha, Brasil, etc., mantêm as suas Bibliotecas Digitais, onde os livros se apresentam como documentos escritos digitalizados de forma fotográfica (sem a digitalização de texto, nem a automática), e apenas para alguns dos livros foi organizado uma tabela de conteúdos (índice) descritiva (com digitalização de texto manual), indexando o início de capítulos. Uma espécie de relação de títulos (índex) dos dados do livro fotografado página a página. De facto um índice com o seu texto digitalizado. Não se trata de metadados em termos de informática. Algo semelhante foi feito na FMVG, para o romanceiro tradicional português, não havendo digitalização do texto do romanceiro, pelo que apenas encontramos documentos fotografados a que foi dado um “nome”, título ou tema organizados num índice apontador para os diferentes registos escritos fotografados. Arquivo https://romanceito.pt
Exemplos de arquivos digitalizados de obras literárias:
Embora o Teatro não se possa reduzir ao seu texto literal e, por consequência, o seu Estudo implique a recuperação das peças pela acção dramática encenada nos termos da sua criação pelo autor, sem o qual em Portugal jamais haverá estudos do Património do Teatro Português – que não existe – no Centro de Estudos de Teatro (CET) da FLUL encontramos o melhor exemplo português de digitalização de facto do património literário escrito, de documentos fotografados e com digitalização manual de texto (completa), embora ainda com erros de interpretação filológica na fixação crítica dos textos seculares. O qual permite de facto percorrer de forma ordenada e classificada por diversos critérios de pesquisa, todas as obras de teatro português conhecidas, dos séculos xvi e xvii, fazer pesquisas seleccionadas e condicionadas. Em www.cet-e-quinhentos.com   e  www.cet-e-eiscentos.com
Outro exemplo importante de dados patrimoniais digitalizados (de facto texto digitalizado) encontra-se no site com a obra, hoje quase completa, de Fernando Pessoa: http://arquivopessoa.net …Mas há outros.

Faro, 30 Novembro de 2018.
Noémio Ramos