Fundação Manuel Viegas Guerreiro, Querença, 24 de Novembro de 2018
Oradores: Pedro Ferré, Ana Mourão, João Minhoto Marques
Moderadora: Sandra Boto
Conceito da acção (na prática actual):
Em geral as “mesas redondas” actuais constituem uma espécie
de espectáculo de projecção – que se pretende erudito – em que o público se
deve pasmar tanto pelo saber quanto pela performance dos oradores seleccionados
para o palco, e, como vai sendo prática corrente, em conformidade com a
comunicação de massas, ao moderador pertence intervir dirigindo e impondo-se
como maestro, ou expressando sentenças, ou ocupando-se com loas ou outras alocuções
triviais.
Ao público, na plateia ou no balcão, como em qualquer
espectáculo, cabe-lhe apenas aplaudir sem causar inconveniências ou
interrupções no programa e, em contrapartida, ao maestro cabe impor a sua
batuta se da plateia se levantam quaisquer divergências ou obstáculos.
Podemos afirmar que a sessão na Biblioteca da FMVG obedeceu
correctamente ao paradigma da acção exposto.
Todavia, uma prática muito longe do nosso ideal de Mesa Redonda perante uma
plateia.
Contexto da acção:
Assistiu-se à exposição individualizada dos oradores enquadrada
no tema programado da “Mesa redonda”, Conservar
a palavra: Patrimónios literários e Literatura patrimonial, dirigida pelas intervenções
da moderadora, ora adicionando perspectivas além do contexto, como a
candidatura a “projectos da EU sobre o património”, ou a “digitalização” do
património “da palavra e do literário”, ora recorrendo a manipanso para leitura
de alguma afirmação relacionada com o contexto, lendo floreadas opiniões
triviais, ora cortando com diplomacia a interrupção por parte da plateia.
Assim se distribuindo o resumo das intervenções dos oradores:
Ana Mourão perorou sobre “Conservar a palavra”, pondo em evidência a tradição oral, popular,
ou a memória de um povo, e a necessidade da sua conservação.
Pedro Ferré perorou sobre “Patrimónios literários”, tornando evidente que o património se deve
definir pelos nossos Valores históricos. Património é História, e constitui-se
pelo nosso passado: havendo objectos e documentos dos Valores do passado, como
também nos ficaram do passado objectos (materiais e imateriais), na forma de
tradições, que hoje documentamos em registos sonoros, escritos e ou
fotográficos. Porém, sem História não há património.
João Minhoto Marques perorou sobre “Literatura patrimonial”, evocando a necessidade dos Cânones (Valores)
para determinar ou seleccionar o que é ou não Literatura patrimonial.
Uma confusão generalizada estabeleceu-se com a questão da
“digitalização” do património, no caso literário, oral ou escrito, em todo o
caso documental… Esta questão conduziu a algumas incongruências da parte dos
que sobre isso se pronunciaram.
Análise da acção
O formato paradigmático da “Mesa redonda” não corresponde
aos nossos ideais – certamente uma apreciação subjectiva – porém, verificámos
haver uma organização compartida e linear das intervenções: (1) Conservar a palavra; (2) Patrimónios literários; e (3) Literatura patrimonial; não havendo
lugar a debate sobre um mesmo tema. Pelo que o debate não sucedeu.
Cada orador pronunciou-se apenas sobre a particularidade do
tema que lhe foi consignado (1,2,3), com a excepção de Pedro Ferré que, numa
segunda intervenção, com as referências ao romanceiro
velho (sec. xiv e xv, anónimos, populares), ao romanceiro de autor (novo, Gil Vicente), e aos romanceiros tradicionais (populares)
que se conservam (ex. na FMVG), bem como à valorização da História e das
premissas nacionais (ex. EEUU, sem História, sem bitolas de qualidade), para a
definição dos Cânones, soube colocar a interacção temática em causa na “Mesa
redonda”.
E sobre a temática nada mais há a dizer.
Sobre outras questões fora do contexto temático, introduzidas
pela moderadora, como a questão dos projectos a financiar pela EU nos próximos
anos, no que diz respeito ao património cultural e sua digitalização, lembramos que o primeiro objectivo da EU está
dirigido aos “valores patrimoniais de carácter europeu”, ao que incide sobre o património
histórico comum dos europeus, aos valores interactivos da história europeia
(nestes os valores nacionais respeitantes), só depois aos patrimónios exclusivamente
nacionais e, só por último, aos objectos e documentos materiais ou imateriais
de carácter local, ou de lugar. Simplesmente porque há sempre prioridades.
Sobre a questão da digitalização,
também introduzida na “Mesa redonda”, queremos contribuir para esclarecer algumas
confusões detectadas nas intervenções:
Arquivo digital de obras literárias (qualquer texto impresso ou
manuscrito):
Tal como o registo escrito, o registo digital das artes que
utilizam a palavra ou somente as letras, sinais ou outros símbolos afins de uma
linguagem, é possível, conveniente e importante que se faça, conscientes de que
o que se deve digitalizar é a escrita. Digitaliza-se cada palavra, letra a
letra e outros símbolos ou sinais da escrita, de qualquer língua viva ou morta,
onde cada letra, símbolo ou sinal corresponde a um código numérico na sua forma
binária, constantes de uma ou mais tabelas de codificação, registando-se em
metadados a descrição e identificação, da digitalização efectuada das
respectivas tabelas de codificação (algo que é feito de modo oculto pelo
programa informático utilizado) e de tudo o mais que seja importante para a sua
tradução simbólica legível ao Homem (portanto o formato de dados utilizado pelo
programa de computador usado para o efeito), portanto reconvertendo o código em
letras, e assim em texto escrito. Há hoje uma standardização aceitável dos
meios informáticos e um manancial de conversores para diferentes sistemas de
tabelas e organização de dados. E fora disto não há digitalização de texto.
A digitalização de texto pode realizar-se de forma manual ou
automática.
A forma de registo digital por entrada manual de dados
(texto, escrito), é ainda a única que de longe garante, após revisões
efectuadas por terceiros, a correcção dos dados digitalizados.
A digitalização automática de texto pode hoje fazer-se de
dois modos, a partir de duas formas diferentes de entrada: (1) ou entrada de
voz; (2) ou entrada de documento escrito (impresso ou manuscrito) fotografado.
Tanto uma forma como a outra estão, ainda hoje, bastante sujeitas a erros de
leitura, de identificação e de programação.
Nas entradas de voz os programas informáticos que
identificam as palavras, os ditongos ou os sons, não estão suficientemente
aperfeiçoados senão para frases simples e muito limitadas, ainda que “o (auto) arquivo
de dados e a (auto e re)programação informática dedicada” – a dita
“inteligência artificial” – apropriada ao sistema procure avançar, porém, sem
fim à vista, sem que se adivinhe uma meta ou garantia de não cometer erros.
Nas entradas por fotografia documental, os programas
informáticos que identificam letras, sílabas, palavras e frases, os denominados
OCR (reconhecimento óptico de caracteres), sofrem de problemas semelhantes:
fraca identificação dos caracteres tipográficos, agravando-se exponencialmente
com a antiguidade e ou o estado de conservação dos documentos fotografados; e a
impossibilidade de reconhecimento correcto das caligrafias, etc.. Todavia,
neste caso, quanto mais recentes forem os documentos impressos fotografados (sobretudo
se os caracteres tipográficos pertencerem às fontes dos processadores de texto por computador), melhores os
resultados de um programa OCR, que também os há bons e maus.
Podemos afirmar que há bons programas de leitura de texto
fotografado (OCRs), pois os melhores permitem recuperar texto que, embora com
uma enormidade de erros, possibilitam a construção de ficheiros de texto que
podem (e servem) de base à indexação das palavras que se encontram no documento
fotografado, o qual depois se pode apresentar ao leitor (na consulta) apontando
as palavras procuradas.
Por exemplo: o Projecto
Gutenberg , o mais avançado projecto de digitalização de texto, apresenta
como resultado da pesquisa os ficheiros em vários formatos de arquivo de dados,
incluindo o ficheiro com a digitalização manual, ou a digitalização
automática do texto (saída do OCR) a partir dos documentos fotografados (com DSLR ou através do scanner), enquanto a Google (books)
apresenta o documento fotografado
apontando as palavras constantes da página, e nela identificadas pelo OCR, mas
cada página sob a forma de imagem fotográfica.
Assim, cada arquivador de dados digitais apresenta
diferentes formas de arquivo a que chama digitalização.
A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) assim como a de
Espanha, Brasil, etc., mantêm as suas Bibliotecas Digitais, onde os livros se
apresentam como documentos escritos digitalizados de forma fotográfica (sem a digitalização
de texto, nem a automática), e apenas para alguns dos livros foi organizado uma
tabela de conteúdos (índice) descritiva (com digitalização de texto manual),
indexando o início de capítulos. Uma espécie de relação de títulos (índex) dos
dados do livro fotografado página a página. De facto um índice com o seu texto
digitalizado. Não se trata de metadados em termos de informática. Algo
semelhante foi feito na FMVG, para o romanceiro tradicional português, não
havendo digitalização do texto do romanceiro, pelo que apenas encontramos
documentos fotografados a que foi dado um “nome”, título ou tema organizados
num índice apontador para os diferentes registos escritos fotografados. Arquivo
https://romanceito.pt
Exemplos de arquivos
digitalizados de obras literárias:
Embora o Teatro não se possa reduzir ao seu texto literal e,
por consequência, o seu Estudo
implique a recuperação das peças pela acção
dramática encenada nos termos da sua criação pelo autor, sem o qual em
Portugal jamais haverá estudos do Património
do Teatro Português – que não existe – no Centro de Estudos de Teatro (CET)
da FLUL encontramos o melhor exemplo português de digitalização de facto do património literário escrito, de
documentos fotografados e com digitalização manual de texto (completa), embora
ainda com erros de interpretação filológica na fixação crítica dos textos
seculares. O qual permite de facto percorrer de forma ordenada e classificada
por diversos critérios de pesquisa, todas as obras de teatro português
conhecidas, dos séculos xvi e xvii, fazer pesquisas seleccionadas e
condicionadas. Em www.cet-e-quinhentos.com e www.cet-e-eiscentos.com
Outro exemplo importante de dados patrimoniais digitalizados
(de facto texto digitalizado) encontra-se no site com a obra, hoje quase completa,
de Fernando Pessoa: http://arquivopessoa.net
…Mas há outros.
Faro, 30 Novembro de 2018.
Noémio Ramos

